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sábado, 13/12/2008
Peito Vazio (Cartola / Elton Medeiros)
Nada consigo fazer
Quando a saudade aperta
Foge-me a inspiração
Sinto a alma deserta
Um vazio se faz em meu peito
E de fato eu sinto
Em meu peito um vazio
Me faltando as tuas carícias
As noites são longas
E eu sinto mais frio
Procuro afogar no álcool
A tua lembrança
Mas noto que é ridícula
A minha vingança
Vou seguir os conselhos
De amigos
E garanto que não beberei
Nunca mais
E com o tempo
Essa imensa saudade que sinto
Se esvai
"A gente só aprende com pessoas que são muito melhores do que a gente, no caso esse homem incrível chamado Cartola" - Cida Moreira, que está lançando um belíssimo disco com composições de Cartola.
Post 016987 - Nelson Gesualdi - 19:53
quarta-feira, 19/12/2007
Amor natimorto
Que ninguém fale hoje comigo
Imponho-me breve castigo
Choro o inesperado final
De um amor ainda em começo
Faleceu ainda moço
Num espetacular tropeço
Bateu a cara na porta
Não passou da aorta
Diluiu-se no organismo
Sequer teve um funeral
Post 015841 - Nelson Gesualdi - 20:22
Amor polissêmico
que não se pranteiem mais
os amores natimortos
todos os que são tortos
que arrebatam, criam loucos
nos descolam do chão
estão todos condenados
acabam nos aterros sanitários
ou no meio de algum lixão
por contrato padrão
previamente acertado
agora é o amor pré-moldado
desenhado na prancheta
calculado em planilha
arrematado com nexo
não precisa de sexo
nem calor na virilha
sem suores e humores
arrumadinho e asséptico
prescrito pelo médico
com bula, contra-indicação
posologia e modo de usar
Mude-se conceito e sentido
Que se dava ao verbo amar
Post 015840 - Nelson Gesualdi - 20:17
domingo, 02/12/2007
Descalço na escuridão Para BV
saída de um filme francês
ela, que é impenetrável,
vem para satisfazer comigo seu desejo real
sem misericórdia
me dá seu corpo como se eu o tivesse comprado
linha reta até meus desejos
leio poemas por frestas de luz
desejo como se nunca tivesse sofrido
me dá pena de mim
escravo de suas incursões no meu mundo
me serve seu vinho e sua saliva
sorvo com a sede de um beduíno
boca de homem, coração de menino
Post 015782 - Nelson Gesualdi - 20:00
segunda-feira, 30/10/2006
Eleição divertida
- O seu nome não está na lista de votação da nossa seção. Você não tem aí um dos antigos comprovantes de votação? Podemos ver sua seção nele.
- Não tenho. Eu não votei ainda.
- Bem, você já tirou o título, né?
- Não. Na televisão disse que eu poderia votar sem o título, só com a identidade.
...
- Nossa, essa seção eleitoral diminuiu muito. Só tem trinta e quatro nomes aqui, e o meu não está entre eles.
- Esta é a lista de alunos da turma que funciona nesta sala, mas só quando não há eleição. Para seu nome aparecer aí, só se matriculando segunda-feira na quinta série.
...
- Eu apertei confirma e apareceu FIM escrito aqui. Acabou?
...
- pi, pi, tlilililili. pi, pi, pi, pi, pi, pi
- Oiê, já acabou. Não apareceu FIM aí?
- Ah, apareceu, mas eu queria votar de novo.
...
- Vê aí, Will Wilson.
- Ahn?
- Will Wilson.
- É, minha filha, meu pai era gago.
...
- Tem aí a lista com o número dos candidatos?
- Tem sim, tá ali ao lado da porta, com o número dos dois candidatos.
- Agora são só dois, é?
Post 014178 - Nelson Gesualdi - 16:08
sexta-feira, 27/10/2006
O grande embate
Como não poderia deixar de ser, escrevo sobre as eleições deste domingo. Assunto original, como originais são os perfis das duas coligações e seus candidatos. Senão vejamos.
De um lado está o candidato do governo passado, que criou o PROER para a salvação de bancos quebrados, período no qual os bancos acabaram indo muito bem, obrigado. De outro, o candidato do partido que sempre pregou contra os banqueiros e, que de tão carismático e tão fofo, conseguiu destes mesmos banqueiros empréstimos sem aval para distribuir entre os deputados no episódio do mensalão. Aliás, no seu governo, os banqueiros continuam muito bem, obrigado.
De um lado aqueles que se aliaram ao PTB, ao PL e a outros partidos de aluguel em nome da governabilidade. De outro, aqueles que se aliaram ao PTB, ao PL e a outros partidos de aluguel em nome da governabilidade.
De um lado aqueles que enfrentaram as oligarquias de braços dados com ACM.
De outro, aqueles que o fizeram de braços dados com Sarney e Jader Barbalho.
De um lado aqueles que não inventaram a compra de parlamentares, mas compraram a emenda constitucional da reeleição. De outro aqueles que também não inventaram a compra de parlamentares, mas mantiveram uma relação promíscua com o legislativo a ponto de negociarem votos por dinheiro de origens nada claras.
De um lado aqueles que tiveram ministros e altos funcionários envolvidos em negociatas de ambulâncias e emendas orçamentárias. De outro também.
Ora, estas são questões pontuais, alegarão defensores de ambos os lados. O importante são as idéias e os projetos de cada um para o Brasil.
Claro, claro. Como podemos observar, o país encontrará em ambos respostas perfeitas para os palpitantes temas da saúde, da educação e da segurança pública. Esse negócio de ética é coisa secundária. Nenhum dos dois blocos conseguiu resolver esse problema porque, quando no governo, o outro atrapalhou. A culpa é do outro.
Sinceramente, diante de tamanha diferença de perfis e de princípios, comecei a variar e não consigo atinar com o lado que está certo. Ora penso uma coisa, ora penso outra, a ponto que já me ocorre a perfeita frase de Stanislaw Ponte Preta: “ou restaure-se a moralidade ou nos locupletemos todos”. Oh dúvida que me assalta, oh responsabilidade! O que fazer?
Acho que a única solução é somar estas forças antagônicas. Opero: 45 + 13 = 58. Sim, 58. Está a 7 unidades de uma boa idéia e a 11 de outra melhor ainda.
Post 014153 - Nelson Gesualdi - 15:42
terça-feira, 26/09/2006
Vestuário adequado
Uma pequena fantasia que consista num par de orelhas de burro será calçada, vestida, colocada ou portada? No corpo nós vestimos as roupas, nas extremidades calçamos sapatos e luvas, na cabeça colocamos chapéus e nas mãos portamos bengalas. E a orelha de burro, como é incorporada à nossa figura?
Essa a dúvida que me aflige no momento. Afinal, pretendia ir às urnas no domingo com orelhas de burro, mas não sei como dizer isto, como formular corretamente a frase. Para minha sorte, há uma alternativa. Aprendi com D. Orsy, minha primeira professora, que quando não conseguimos identificar a construção correta de uma frase, devemos tentar alguma outra que a substitua.
Vou encaixar um nariz de palhaço bem no meio da cara e está resolvida a construção da frase correta para o comparecimento ao pleito.
P.S.: Napoleão ia às batalhas de camisa vermelha, para o caso de ser ferido. Assim disfarçaria o ferimento. Seguindo este sábio pensamento, aproveito e vou de calça marrom.
Post 013934 - Nelson Gesualdi - 18:16
quinta-feira, 27/07/2006
Coloque-se em perspectiva
Você acha que esse mundo é pequeno? Acha que é grande?
Dê uma sacada nisso aqui:
Post 013592 - Nelson Gesualdi - 10:23
quinta-feira, 01/06/2006
Vazio
o casal de namorados caminha
passeia pelos espaços
olha o horizonte
contempla a línha longínqüa
chupa uma manga em baixo de uma mangueira
o espaço e o horizonte
que trazem o vazio para dentro das pessoas
que não vêem as outras pessoas com vazio
a mangueira que não vê outra mangueira
e sente o mesmo vazio das pessoas
o casal de namorados deita na grama
assusta o vazio das pessoas
faz a sombra da mangueira viver
e pensa que não haverá vazio
o casal de namorados entra em casa
entrega-se ao desejo
brande o amor contra o vazio
enxota-o com um beijo
o casal de namorados pensa
que seu amor é como o sol
que sempre estará lá
e tudo faz sentido
o casal de namorados não entende nada de astrofísica ou biologia
Post 009213 - Nelson Gesualdi - 16:45
quarta-feira, 31/05/2006
Dolce vita
desde que saí do castelo
vivo andando pelas ruas
procurando algo que seja dulcíssimo
como Dulcinéia del Toboso
e algum inimigo assombroso
um dragão fogoso
um moinho altíssimo
mas não gosto de doces
nem tampouco sei lutar
Post 009210 - Nelson Gesualdi - 11:23
sexta-feira, 19/05/2006
Apatia
eu invejo os homens vis
e os que se vendem caro
todos os venais que conheço
os habilidosos e os estabanados
os que nasceram para ser
e os que nasceram para fazer
os que dormem
e os que sonham
(com todas as minhas forças)
os que choram
e mesmo os que matam
quando sentem inveja
os que perguntados
nunca quiseram ser ninguém
que não fosse eles mesmos
os bons
tomados de mansidão e tolerância
afogados em amor
os maus
repletos de torpeza
imersos em ódios
os iluminados
contemplativos, contemplados
credores de deus
os crentes
sua fé despudorada
e suas certezas inabaláveis
os apóstatas
os cínicos, os renegados
os loucos e os abjurados
os pensadores
os cientistas, os exploradores
os que não crêem e buscam
os que não têm saudades dos amores antigos
porque os sabem impossíveis
porque amam amores novos
eu invejo
porque minhas pernas não vão
porque minhas mãos não fazem
porque meu coração não bate
porque meus olhos marejam mas não sangram
Post 009172 - Nelson Gesualdi - 12:08
quarta-feira, 26/04/2006
Poesia morta
a poesia em mim morreu
perdi o gosto
dos arranjos de palavras
das imagens contundentes
agora é uma escada íngreme
com corrimão de arame farpado
degraus ensaboados
e uma mini-saia na frente
Post 009090 - Nelson Gesualdi - 11:31
terça-feira, 28/03/2006
Porque eu voto nulo.
Eu não concordo em escolher o menos pior. Para mim, são todos o mesmo lixo.
Votar nulo não é se omitir, votar em branco é que é omissão. Se nenhum dos candidatos conseguir maior número de votos do que os votos nulos, a eleição será anulada. Deverá então ser realizada nova eleição e nenhum daqueles candidatos poderá concorrer. Por isso não há botão para anular o voto na máquina de votação, só de voto em branco.
Nenhum político quer isso, naturalmente. O que já constitui um bom motivo para fazê-lo. Um político sem mandato é vulnerável e pode ser processado, indiciado e o escambau.
Se o número de votos nulos crescer significativamente, os políticos perderão aquela impáfia de quem está aboletado no poder e fora do alcance das leis.
Eu adoraria ver a mídia gastar horas analisando "o recado das urnas na festa da democracia".
Post 009035 - Nelson Gesualdi - 09:50
sexta-feira, 24/02/2006
Sacudidela
acorda dessa placidez
corre nos teus papeizinhos guardados
lê uma carta de amor antiga
retoma tua acidez
te conforta
vê que já foi amado
relembra a mentira da certeza do amor
visita o para sempre na esquina,
caduco sem conseguir atravessar a rua
não esquece que aquela dor impossível acaba
volta a dormir, agora mais sóbrio
Post 008926 - Nelson Gesualdi - 14:35
segunda-feira, 13/02/2006
Campeão da Taça Guanabara 2006
não é preciso uma bandeira
nem sequer uma camisa
basta ver a estrela
solitária
no meio da torcida.
Post 008897 - Nelson Gesualdi - 09:56
domingo, 06/11/2005
Zeca Pagodinho, o samba e minhas verdades
O Rappa - Maneiras
by Chico da Silva
Se eu quiser fumar eu fumo
se eu quiser beber eu bebo
Pago tudo que consumo
com o suor do meu emprego
Confusão eu não arrumo
mas também não peço arrego
Eu um dia me aprumo
tenho fé no meu apego
Eu só posso ter chamego
com quem me faz cafuné
Como o vampiro e o morcego
é o homem e a mulher
O meu linguajar é nato
eu não estou falando grego
Amores a amigos de fato
nos lugares onde eu chego
Eu estou descontraído
não que eu tivesse bebido
Nem que eu tivesse fumado
pra falar da vida alheia
Mas digo sinceramente
na vida a coisa mais feia
é gente que vive chorando de barriga cheia
Post 008569 - Nelson Gesualdi - 02:45
terça-feira, 04/10/2005
Estática
há algum tom de quietude
não que haja silêncio
apenas ruídos insignificantes
rádios fora de sintonia
(falta de antena furta a melodia)
falas, notícias, poemas
uma gaiola de periquitos
inaudível sem válvulas e transistores
a luz invade esse mesmo vão
como pode ser que haja esse espaço
e eu não?
abano uns pensamentos
leio Tabacaria em sotaque lusitano
também aceno ao "Esteves sem metafísica"
descomponho-me com Desencanto
soluço com meus camaradas de dúvidas
desfaço-me em sangue transparente
"Amargo e quente"
interrogo se existe o Ser e o que sente
não, não pode haver
alguém a tal ponto indecente
que sofreria de tamanho tédio
cujo único remédio
seria nos ver viver
Post 008422 - Nelson Gesualdi - 12:10
quarta-feira, 14/09/2005
Festival de Esquetes - SESC/DF (o relato)

Agradeço aqueles que compareceram, obrigado pela força.
Na sexta-feira, nos apresentamos na eliminatória mais disputada de todas. Ninguém foi eliminado por tempo ou foi gongado e o nível estava realmente parelho. Nos classificamos para a final pelo voto do Júri Popular, o que muito nos honrou.
Na final de sábado, fizemos uma ótima apresentação, com casa cheia, gente sentada no chão. Só isso já foi um grande prêmio.
Breve, estaremos apresentando o espetáculo completo. Estamos atrás de pauta. Aguardem notícias.
Post 008322 - Nelson Gesualdi - 11:26
terça-feira, 06/09/2005
Festival de Esquetes - SESC/DF
Pessoas,
Está acontecendo esta semana, de 6 a 9 de setembro, a 7ª edição da Mostra Competitiva de Esquetes Teatrais do SESC/DF. Estou concorrendo com a esquete "Dois Palhaços e Um Penico", que escrevi e será representada pelos atores Wilson Marinho e Marcone Cutrim. A apresentação será no dia 9/9, sexta-feira, a partir das 20:00 h.
O preço do ingresso é simbólico, R$1,99, e a cada dia serão selecionadas três esquetes para a finalíssima no sábado. O local é na 913 Sul, no Teatro Sesc Garagem.
Conto com vocês lá para prestigiarem a produção cultural aqui de Brasília!
Se possível, divulguem, por favor.
Abraços.
Post 008276 - Nelson Gesualdi - 12:39
quarta-feira, 17/08/2005
Rastros
não escorrerá sangue
não jorrarão lágrimas
não florescerão dores
não ficarão rancores
não haverá rastros
no teu peito
nem tampouco traços
no meu leito
nada será muito nem pouco
apenas sentimentos econômicos
guardados em frascos pequenos
terminaremos em uníssonos ais
nossos desejos uniformes
sem luz e cor e nada mais
Post 008141 - Nelson Gesualdi - 15:36
segunda-feira, 08/08/2005
As coisas mudam.
Antigamente, havia males que vinham para o bem. Depois disse-se que há males que vêm para foder com tudo. Hoje os tempos são outros, há bens que vêm pelas malas.
Post 008094 - Nelson Gesualdi - 17:04
sexta-feira, 20/05/2005
Doralice
doralice, doralice
um dia alguém me disse
que esperasse dos teus olhos
algo que não me lembro
porque há uma tv que fala de política
e você, doralice, é tão doce
tão lírica
que não poderia falar de ti
ouvindo notícias de CPI
doralice, doralice
gostaria que você ouvisse
de minha boca o que não disse
negar todas as esquisitices
que o mundo vive e bafeja
mas, pequena doralice,
verás por ti mesma
o mundo sempre solfeja
as notas da babaquice
Post 007713 - Nelson Gesualdi - 00:15
quinta-feira, 10/03/2005
Especulações em torno da palavra amor
Para Karina Maria Lopes de Castro
A Carlos Drummond de Andrade
que diabos é este torpor?
vem de você ou de mim
esse amor?
é só das nossas faltas feito
ou é entidade etérea
além do peito?
existirá o cupido
estampado e esculpido no plasma
flechando invisivelmente corações?
ou vivemos buscando emoções
amores que nos amem
o quanto não nos amamos?
para que serve, afinal,
o amor?
ser menos só?
passar o tempo
enquanto não se é pó?
bicho ama,
ou só quem tem alma
ama?
ou amar é pensar que bicho tem alma?
alma tem a ver com amor,
ou são ambos como um vapor
no qual acreditar
esquenta e acalma?
dói perder amor
como se os olhos
não vissem mais cor
mas por que tanto corrói
ainda que traga bolor
a perda de algo tão abstrato?
será concreto seu substrato?
haverá conceito de fato?
por que quando não constrói
destrói?
por que nasce aos trancos?
por que morre vagarosamente
aos prantos?
será só para poucos
ou para loucos?
ou será que nunca será
mais que um grito rouco
o amor?
Post 007352 - Nelson Gesualdi - 14:43
quarta-feira, 09/03/2005
Epitáfio para um morto-vivo
me afogo
me salvo
não planejo
meu coração é feito de coisas banais
finalizo
começo
tropeço
como a vida podia ser tanta!
no final acaba qualquer uma
nada faz sentido
a magia fugiu para o céu
eu desaprendi a voar
é tudo simples como a verdade
da menina que come chocolates em Tabacaria
simples
e completamente impossível
como todos os beijos
que quis dar nas estrelas
Post 007347 - Nelson Gesualdi - 15:54
segunda-feira, 21/02/2005
Quantos reais por um trincintim?
Estava num shopping de produtos de procedência duvidosa, por assim dizer. Contrabando mesmo. Na Augusta, pertinho da Paulista. Pergunto ao chinês:
- Quanto custa essa Sony Cybershot 4.1 Megapixels?
- Sessenta trincintins.
- Cuméquié?
- Sessenta trincintins.
- Quanto?
- SESSENTA TRINCINTINS - respondeu-me ele, quase gritando, como se eu fosse surdo.
- ?!?
- Meia três zero.
- Ah! Seiscentos e trinta!
Depois ri de me dobrar. Na hora pensava quanto valeria um trincintim. Que raio de moeda é essa?
São Paulo, por quatro ótimos dias, foi sempre uma agradável surpresa. Carioca, cresci ouvindo bobagens tais que diziam que o carioca vivia e o paulista trabalhava, que paulista é estranho, que não tem jogo de cintura. Tudo besteirada. São Paulo é uma cidade encantadora, metropolitana, misturada. Tem os mesmos problemas das outras grandes cidades, mas tem seus encantos, e são muitos.
Come-se em São Paulo como em nenhum outro lugar. Come-se bem e fartamente. Comi as melhores empadas da minha vida, comi um beirute fabuloso, comi um pintado sensacional. Até pão com manteiga é melhor que nos outros lugares. Melhor, ainda fui muito bem atendido, sempre servido com um sorriso e com simpatia. Nada que pudesse se assemelhar ao lugar comum que diz que o paulista corre, corre, trabalha, trabalha e não se diverte. Quem trabalha de boa vontade e munido de um sorriso está se divertindo.
Conheci vendedores que sabiam absolutamente tudo sobre seus produtos, desde a moça da máquina fotográfica até o rato de sebo de discos que tem uma banca na Feira do Bexiga. Gente que respira o que faz, e o faz bem e tranqüilamente. A propósito, na Feira do Bexiga achei um LP dos Rolling Stones por R$ 3,00, um Zippo por R$ 10,00. Arrematei ambos, naturalmente. Depois me sentei na pizzaria que há na praça e passei horas agradáveis ouvindo um belíssimo grupo de chorinho, de senhores todos com mais de sessenta anos, sorridentes, musicais, simpáticos.
Recordava como tinham sido bons estes dias e me deliciava. Mônica, Rúbia e Rô foram encantadoras, divertidas, cicerones e tudo o mais. Atenciosas, não me deixaram mofando num quarto de hotel. Mônica ainda me ofereceu um almoço maravilhoso, feito pelo simpático e ótimo cozinheiro, Luis, seu marido (ela acho que não frita nem ovo). Conheci sua família, neto incluso, todos adoráveis. Aqui, um parêntese para Nanda, de novo visual, a delicadeza em pessoa. E tem uma filha linda, linda, linda.
Pensava nisso, relembrava os bons momentos, o encontro com minha irmã, a visita ao MASP e à coleção de 100 obras impressionistas e desvanecia. Ficar cara a cara com um Picasso, Van Gogh, Renoir, Toulouse-Lautrec, Monet, Manet, Matisse, Cézanne, Gauguin, Modigliani... Isso é coisa que não se esquece, impressiona mesmo. Ainda havia alguns manuscritos de Chico Buarque, vistos em exposição no SESC Pinheiros. Correspondência com Tom Jobim e Vinícius de Morais, além de algumas letras originais, documentos da censura... Aí deu-se a covardia, me apareceu um realejo. Um R-E-A-L-E-J-O !!!! Tirei a sorte e quase chorei. Dizia que com o meu esforço eu seria feliz. Huahuahuahua. Já era.
Post 007284 - Nelson Gesualdi - 12:11
quarta-feira, 02/02/2005
Os mistérios profundos da lixeira
A lixeira-cinzeiro que se encontra na ilustração, como o próprio nome diz, é um objeto de dupla funcionalidade. Sua utilização é de difícil compreensão e requer um curso de especialização, o que é recomendado para todos aqueles que precisam interagir com ela diariamente. Sua função é separar objetos inflamáveis de cigarros e fósforos e evitar princípios de incêndios. Elaboramos aqui uma referência rápida para sua utilização, buscando elucidar suas funcionalidades mais obscuras e desmentir lendas infundadas.
A parte superior (A), rasa e chata, apesar de se assemelhar a uma tampa, na verdade tem a função de cinzeiro, onde devem ser depositados cinzas e tocos de cigarros. Muito embora exerça forte atração sobre copinhos, plásticos, caixinhas e outros objetos pequenos, recomendamos que estes sejam depositados na parte inferior (B). Esta separação, segundo especialistas, evita incêndio e odores indesejados, além de facilitar sobremaneira sua limpeza.
Estudos recentes, realizados pelo INMETRO, desacreditaram a lenda da existência do Monstro da Lixeira, criatura que habitaria sua parte inferior e engoliria a mão que nela tentasse introduzir algo. Após cinco anos de pesquisas utilizando a mais moderna tecnologia, não foram encontrados quaisquer vestígios do mítico monstro, tendo o instituto outorgado seu selo ao utensílio.
Caso seja fumante e persistam dúvidas, procure a unidade dos Fumantes Anônimos mais próxima, pois definitivamente você não está apto a manobrar um cigarro. Se não for fumante, por favor, utilize apenas a parte destinada aos objetos não provenientes da tabacaria.
Post 007152 - Nelson Gesualdi - 13:33
terça-feira, 14/12/2004
Anjo caído
para ser é preciso
não saber que não se sabe
ter certezas e crenças
preterir as interrogações
preferir as exclamações
gastar muitos adjetivos
crer nas propriedades
das coisas, das gentes
acreditar em correntes
semear e esperar brotar
pacientemente, a novidade
um qualquer lenitivo
a possiblidade de ser bem mais
mais que um trocadilho tosco
dito por um deus de mau gosto
enquanto acariciava o umbigo
Especulações em torno da palavra homem
Carlos Drummond de Andrade
Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?
Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?
Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?
E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta
nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?
Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen
brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes
de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem?
Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?
Vale menos morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem
é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa a?
Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?
Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem
consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono
que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem?
Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?
Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?
Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas
e são tão engraçadas
as horas do homem?
mas que coisa é homem?
Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata
com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?
Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?
Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?
E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?
Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?
Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?
Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?
Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?
Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?
Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?
Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?
Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?
E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?
Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?
Post 007006 - Nelson Gesualdi - 11:12
quarta-feira, 27/10/2004
Brutessência
hei de ignorar
não haverá ilusão
hei de intimidar beija-flores com o olhar
não haverá delicadeza
hei de não orar em igrejas barrocas
não haverá consolo
hei de esmagar besouros perdidos
não haverá noites tranqüilas
hei de jogar fora as fotos antigas
não haverá memória
hei de engravatar crianças
não haverá inocência
hei de edificar sistemas operacionais
não haverá brechas
hei de sujar o lixo
não haverá a mínima possibilidade
hei de levar miseráveis ao patíbulo
não haverá misericórdia
hei de ser
Post 006875 - Nelson Gesualdi - 10:20
quinta-feira, 14/10/2004
Memória II
Minhas memórias são casas pequenas com muros pequenos
como pequenas ficaram as coisas quando cresci.
Não precisam das ruas estreitas dos bairros antigos
mas estão dispersas neles, uniformemente perdidas
embaralhadas pela distância e pelo álcool
iluminadas por uma luz fraca de lua velha.
Porque tive medo, misturei as ruins às boas
para nunca mais encontrá-las
e esqueci tudo.
Agora minhas memórias são amnésias aleatórias
entrecortadas de lampejos fotográficos
me lembram que não sei lembrar
e me dizem palavras que não entendo.
Post 006849 - Nelson Gesualdi - 15:20
quarta-feira, 22/09/2004
Anotações
Escreve aí no teu caderno
O poeta não vai para o inferno
Porque já foi prosa
Porque já foi rosa
Já foi Salvador Dali
Antes de saltar daqui
Escreve aí também, cambono
A poesia é um saco de gelo
Queima a idéia do poeta
Que teima primavera no outono
Vive sempre nu em pêlo
E as vezes pensa que é profeta
Post 006761 - Nelson Gesualdi - 18:05
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